quinta-feira, 7 de junho de 2007

Coisas simples (4 de 4)

Coisa simples que faz muita falta. Sentar na calçada e conversar. Essa semana eu fiz isso. Como uma coisa simples pode fazer tanta falta? Não é algo que se faça em Brasília todos os dias: coisas simples.
Coisas simples eu me refiro a andar em uma praça, sentar em um banco, sentar na calçada para conversar com amigos. Parece bobeira. Mas se você viveu pelo menos um ano em uma cidade normal, você verá que não é bobeira.
Coisas simples que, em Brasília, passam despercebidas. Um olhar ou um sorriso geralmente são mal-interpretados. Pessoas não se dão oi. A cidade é praticamente morta. À noite, parece uma cidade fantasma.
Talvez seja por isso que eu vi o Holandês Voador navegando pelas águas do Paranoá outro dia desses. Eu, um pirata que vive de tequila e da mais tosca carne, juro que vi. Estava eu navegando no Bala de Prata para a outra margem, e quase que fui levado pelo navio que leva as pessoas para o mundo dos mortos.
Coisa simples a ser interpretada disso: o navio se desviou de minha pequena embarcação, e seguiu para a margem onde tinha o que parecia ser uma margem que tinha pessoas andando. Na verdade eram carros.
O coitado do capitão não pode ir buscar os mortos da ilha Brasília, pois ele só pode ficar nas águas. E as pessoas dessa ilha são mortas. Não fazem coisas simples. Só coisas extravagantes. Por isso são tão distantes do mundo real.
Na verdade coisa simples que este pirata que outrora foi conhecido como Jovem-de-cara-fechada; depois Jovem-que-não-tem-cara-fechada-mais; e agora é Jovem-Risonho-Olho-Caolho sentia muita falta, era sentar na calçada e conversar. Ontem ele sentou com sua amiga Pequena Menina.
Na verdade ela estava com frio e ficou dentro de sua nova bolsa mágica que para ela parece uma mansão. Será que anos foram desperdiçados porque eu não conversei mais com os amigos sentados na calçada? Não. Mas as conversas foram desperdiçadas, pois na calçada, para quem é de uma pequena vila, assim como eu, sabe que as coisas simples são as que fazem com que os anos não se tornem desperdiçados no futuro...
Porque a tequila sempre acaba? Talvez seja porque estou sentado em uma mesa de bar daqui da Ilha Brasília. Se eu estivesse na calçada, ela não teria caído quando alguém se levantou da mesa... teria caído dentro de meu copo...
Coisas simples, que fazem falta... Coisas simples, que fazem falta... Coisas simples, que fazem falta... São tão simples, que passam despercebidas por nós. A única coisa que consigo me lembrar é da conversa na calçada... Só porque tinha muito tempo que não conversava na calçada... Coisa complexa!

Brincando (3 de 4)

Brincar de ser feliz? Até que é uma boa... Pense bem. Posso muito bem fingir que estou de bem com a vida sempre, e sempre andar por aí sorrindo para tudo e a todos. Mas ao deitar acordado e acordar deitado, vou sempre me lembrar do quão miserável sou.
Nada na TV, nada na internet, nada para fazer, só resta estudar, estudar e estudar. Pessoas que fingem estar felizes. Será que são tão miseráveis assim? Se for desse jeito, temo que sim...
Mas e as pessoas que são fortes o suficiente para evitar sofrer com as desgraças que ocorrem? Eu conheço alguém assim, você também já conhece. É uma Pequena Menina que mostrou para seu amigo Jovem-Risonho enquanto caminhavam pela estrada do Arco-Íris. Na verdade ele percebeu isso.
Houve pouquíssimas vezes que ele realmente sentiu que ela estivesse chateada com algo. E mesmo quando ela falava sobre, a sua voz não tremia. Isso sim é que é força.
Vamos relacionar os dois primeiros parágrafos com o restante da história. Houve uma época que Jovem-Risonho gostava de brincar de ser feliz. Sofreu muito com isso. Mas, depois de caminhar pela estrada das luzes aprendeu que esta brincadeira não é muito saudável. Resolveu parar com a brincadeira. E mudou profundamente seu jeito de ver o mundo. Mas não sabia explicar direito o que aconteceu com ele.
Quando conheceu Pequena Menina, ele finalmente conseguiu perceber o que tinha acontecido. Na verdade, assim como esta crônicazinha começou com uma pergunta, ela terminará com a pergunta que Jovem-Risonho aprendeu a fazer a partir da convivência com Pequena Menina: Porquê brincar de ser feliz.... Se eu sou feliz?

terça-feira, 5 de junho de 2007

A estrada das luzes (2 de 4)

Estou sentado á mesa. O café ocupa um pequeno volume do copo, e o restante é ocupado por leite. Momento de descanso para Jovem-que-não-tem-cara-fechada-mais e Pequena Menina.
Tinham percorrido vários quilômetros pela estrada do arco-íris. Estavam casados com a bela, porém difícil viagem. Esta estrada passa pela vida. E tiveram a oportunidade de conhecer um pouco mais de cada um.
Conversaram bastante, brincaram bastante com coisas sérias, coisas fúteis, coisas bestas, e coisas muito importantes. Encontraram uma casa onde moravam dois velhinhos muito simpáticos, que os acolheram para dar aos nossos protagonistas algo para comer.
Depois de se conhecerem, os velhinhos deixaram Jovem-Risonho e Pequena Menina para conversarem mais. Outras pessoas apareceram nesta cena, foi uma moça alta que atendia pelo nome de Lua, e uma pequena criança que ficou um pouco tímida de entrar nas conversas.
Horas se passaram, e Jovem-Risonho descobriu que Pequena Menina tinha uma habilidade nata para fazer malabarismo com facas. E também ocorreu um fato engraçado. Ela caiu dentro de uma garrafinha de saquê.
Dentro do líquido, ela começou a se imaginar em cidades japonesas, sentada comendo e bebendo, e falando em japonês. Estava vestida com um kimono branco, conversando com uma velinha japonesa menor que ela muito fofa.
Porém, ela estava se afogando sem se dar conta disso. Jovem-Risonho teve que puxar ela para fora da garrafa. Enxugou ela com um pequeno pedacinho de pano e a colocou sobre a mesa, longe de qualquer copo ou garrafa que ela pudesse cair.
O que significou isso? Não sei dizer ao certo, então não vou dizer por Pequena Menina, mas vou contar uma história sobre Jovem-Risonho que possui um significado parecido.
Uma vez ele engoliu uma rosa muito linda. Mas foi com espinhos e tudo. Aqueles espinhos machucavam a sua barriga, mas ele continuava comendo rosas iguais àquela. Rosas lindas que machucavam por dentro deixando marcas profundas.
Mas a diferença para Jovem-Risonho e Pequena-Menina é que ela gostou de mergulhar neste saquê e se emocionou muito com a velhinha simpática. E parece não ter se incomodado com o saquê quente queimando sua língua. Será que existe algo a mais para descobrirmos aqui?
Como já dito antes, Jovem-Risonho não tem o costume de perguntar as coisas, pois acredita que quando alguém não quer falar sobre um problema não adianta perguntar. Não vai adiantar nada, e só vai causar chateação. No dia que Pequena Menina quiser falar sobre esse tombo dentro da garrafinha de saquê, ela vai falar mais abertamente.
Bem, a noite caiu, e nossos amigos tiveram que se separar por um curto período de tempo. Pequena Menina queria ficar mais tempo com o casal de velhinhos simpáticos. Jovem-Risonho quis olhar uma estrada de luzes que passava ali perto.
Nesse momento, a história vai tomar um rumo inesperado. A nossa personagem principal irá ficar de fora por um tempo, mas garanto que é só neste capítulo. Jovem-Risonho subiu em sua carruagem e seguiu pela estrada de luzes.
Era uma estrada bonita e feia ao mesmo tempo. Era feia porque era bem sinistra, não tinha muita vida. Pessoas machucadas ao longo da estrada, e vários buracos que dificultavam a passagem da carruagem.
Mas ao mesmo tempo era bonita pois em meio à escuridão das asas da noite, aquela luz iluminava sem brilho formando uma grande estrada reta, que faz com que os viajantes voltem às viagens passadas.
Quando digo viagens, não digo apenas no sentido literal. Digo em todos os momentos divertidos e difíceis que estão guardados em algum lugar de nossas memórias.
A diferença entre esta estrada e a estrada do arco-íris, é que é a primeira é uma viagem solitária. E a segunda é uma estrada que precisa de duas pessoas para cruzá-la. Com isto explicado, voltemos à nossa história.
Jovem-Risonho se lembrou quando ele viu Pequena Menina pela primeira vez. Ela estava sentada no banco, e ele passou por ela, mas naquele momento não deu atenção, pois tinha uma cara muito fechada. Isso era provocado pelas rosas que ele engolia.
Ele se esforçava muito para continuar engolindo essas rosas, mesmo se machucando muito. Era uma rosa mágica que dominava ele. E fazia com que Jovem-Risonho se tornasse Jovem-de-cara-fechada.
Seguiu mais alguns quilômetros pela estrada de luz e lembrou-se de como foi simples achar esta estrada que diziam ser escondida. E na verdade, a estrada não poderia ter nome melhor... E também percebeu que ela andava paralela à Estrada do arco-íris.
Bom, suponho que você entendeu que esta estrada gera uma nostalgia muito grande no viajante. Nostalgia nos remete à memórias. E quer guia melhor para a vida do que nossas memórias?

A estrada do arco-íris (1 de 4)

Era uma vez, uma menina muito pequena que morava debaixo de uma rosa nos jardins de um prédio muito grande. Porém, só saía de casa à noite para não ser pisoteada.
Todos os dias, ela via um jovem passar em frente à sua rosa. Ela não gostava dele. Motivos ela tinha. Era algo que não agrada a ninguém: ele tinha uma cara fechada. Mas acontece que eram poucas pessoas que percebiam esse lado do nosso coadjuvante. Essa menina com certeza possui uma percepção acima do normal. Do tipo de percepção que somente pessoas com grandes corações possuem (no caso dela, é capaz do coração ser maior que ela).
Mas como a vida é uma eterna criança bagunceira, a nossa protagonista resolveu entrar em contato com Jovem-Fechado. Os motivos que a levaram a fazer isso? Um mistério a ser resolvido até hoje.
Desde as primeiras cartas que trocaram, os dois se deram muito bem, e Pequena-Menina percebeu que ela estava errada acerca de Jovem-Fechado. Dali surgiria uma amizade.
Mas não uma amizade qualquer. É daquelas amizades saudáveis onde os dois sabem brincar (na maior parte do tempo) e a hora de ser sérios. Jovem-Fechado notou desde o princípio que por trás daquela felicidade de Menina-Fechada, algo aa incomodava. Eles conversaram sobre o assunto brevemente.
Nosso coadjuvante-já-não-mais-coadjuvante-mas-sim-um-segundo-protagonista deixou sua amiga falar e não fez muitas perguntas. Ele acredita que as pessoas falam o suficiente para se sentirem aliviadas e não existe necessidade de ficar perguntando coisas assim. O que eles conversaram? Não cabe a este narrador falar, sou apenas um escritor. Se algum dia ela quiser falar dos problemas dela com você, ela irá falar. E também não quero escrever sobre coisas tristes e filosóficas, não faz o estilo de nenhum dos dois protagonistas. Eles preferem coisas alegres e alegro-filosóficas.
Se você visse os dois brincando, com certeza iria querer se juntar à brincadeira. Uma amizade pode ter vários pilares. Um desses pilares é a brincadeira. O caso citado é a própria brincadeira. Quanto mais brincadeiras, mais amigos eles ficam, mais respeito surge, mais eles se conhecem, etc, etc, e bla, bla, bla. Ou seja, se eles brincam bastante, e o pilar dessa amizade é a brincadeira, a cada dia que passa, mais sólida fica essa base.
Um dia, o Jovem-Fechado-Mas-Não-Mais-Fechado-Assim teve que viajar. Ele foi para o litoral, para as terras de sua amiga. Prometeu trazer fotos e histórias. Nesse tempo, eles trocaram algumas mensagens através de pombos-correio. Vá por mim, eu tenho certeza que essas histórias serão contadas enquanto eles degustam uma cerveja, ou um saquê, ou uma tequila. E acredite, ela é quase uma alcólatra.
Uma vez, por descuido, Menina-Pequena caiu em um copo de saquê. Mas esta é uma outra história que merece ser contada em outra crônicazinha. Então vai ficar para outra hora. Voltemos à nossa história e descobrir o que significa o título dessa crônica.
Nosso segundo protagonista, antes de voltar para casa, irá passar alguns dias nas terras de onde veio. São as terras descritas pelo Mestre Ian como sendo as terras onde nascem os homens da montanha, e de onde o som do vento conta tudo. Depois de uma curta estadia, voltará para casa.
Pequena-Menina disse que irá morar lá perto de onde nosso segundo protagonista mora. Assim poderão seguir a longa estrada do arco-íris onde dizem que existe um pote de ouro no final.
Quem gostou dessa notícia mesmo foi a própria Pequena-Menina, pois nem vai precisar caminhar. Poderá seguir viagem sentada no ombro de seu amigo (cujo nome estou com preguiça de escrever) durante a viagem toda...
Em princípio ele ficou chamando-a de folgada. Mas depois se acostumou com a idéia. Depois acabou gostando de ter um ser minúsculo pendurado em seu ombro. É divertido sentir ela tentar se equilibrar enquanto ele de repente balança os ombros só para assustá-la. E assim seguiram pela estrada do arco-íris...
Depois que pisaram na estrada? Não sei... a história parou nessa parte...

sábado, 19 de maio de 2007

E a criança?

Pequena luz que ilumina o caminho. Ando devagar, me olho. Faço piadas. Minha cabeça em conflito, sério ou comediante? Minha cabeça chega à uma conclusão.
Parece que envelheci antes do tempo. Ou não. Existem controvérsias nessa história. Posso ser um crianção para a minha idade, ou posso ser um velho querendo ser uma criança.
No fim das contas, somos todos eternas crianças. Eternos brincalhões. Eternos Adultos. Eternos paradoxos.
Corra mais... Envelheça rápido demais... você só tende a se ferrar nessa história. Depois fica choramingando: “como queria poder voltar a ser criança!”. Tudo bem, eu sinto saudades das boas épocas de minha infância. Mas não quero voltar à minha infância.
Quero continuar crescendo, envelhecendo, tendo consciência de que não sou suficiente maduro para querer ser mais velho ou mais maduro do que realmente sou.
Sou apenas eu. Um Jovem-velho guerreiro, que mantêm a sua criança interna bem viva. Justamente para eu não esquecer de quem eu sou... Sugiro que você faça o mesmo. Deixo minhas palavras neste depoimento curto e grosso, deixo minha dica: não queira amadurecer antes da época. Você pode ficar maduro demais e apodrecer... Eu sei como é isso. Já apodreci uma vez. mas como toda árvore, a gente tem uma chance de renascer de novo... Mas acredite, é um processo meio doloroso esse tal de renascer. Nascer uma vez já ta de bom tamanho. Não cometam o erro que fiz.

sexta-feira, 18 de maio de 2007

A Estátua na estrada

Andando pelo caminho encontrei uma pequena estátua de ouro. Minha curiosidade ganhou forças e fiquei ali parado apreciando a estátua.
A estátua era do tamanho de três mãos de criança, O brilho era impecável. Mas eram os olhos da estátua que chamavam a atenção. São poucas estátuas que tem olhos tão vivos e tão belos. Fiquei hipnotizado por aqueles olhos.
De repente tive uma estranha impressão. A estátua tinha piscado para mim. Você deve estar achando que sou louco. Eu também achei. Para ter certeza de que tinha sido apenas impressão, me aproximei novamente. Ela piscou de novo.
Não estava louco. Pisquei de volta, de forma bem tímida, e ela começou a rir. Perguntou para onde eu estava indo, explicou que tinha sido abandonada, e perguntou se não havia como eu dar-lhe uma carona. Claro que poderia dar carona a uma estátua que fala! Carreguei Pequena Estátua Dourada na mão mesmo, e fomos conversando sobre muitas coisas durante o caminho.
Você deve estar se perguntando por que uma estátua de ouro estava falando? Simples. Ela não era apenas uma estátua. Já foi uma moça. Porém, quando uma pessoa cai em um mar-de-rosas, ela vira uma estátua. Não evolui. Não cresce. E esta moça foi acidentalmente jogada em um mar-de-rosas.
Anos se passaram, e alguém tirou ela de lá. Pensou: “Que estátua bonita!” e colocou ela dentro do bolso.
Mas essa pessoa abandonou a estátua e a deixou ali na estrada. Na verdade, foi exatamente em uma bifurcação onde um caminho seguia para o futuro e o outro para o passado. Ele queria seguir pela segunda estrada, e, às vezes, é necessários que abandonemos algumas coisas valiosas para que possamos seguir algumas estradas em nossas vidas. Esse foi o caso. Ele deixou Pequena estátua Dourada para trás.
O que ele sentiu ao fazer isso? Não sei. Não quero saber. É o tipo de pergunta sem resposta que só leva à loucura. Pequena Estátua Dourada ficou muito triste quando foi abandonada ali na estrada. Como pôde confiar assim em alguém? Não sei. Não quero saber. Outra pergunta sem resposta que só causa dor. Não adianta ficar matutando sobre isso.
Mas, apesar da tristeza, ela logo esqueceu. Já estava melhorando sozinha, e além disso, apareceu um viajante na estrada. Retornamos ao início dessa crônica. Ela me viu andando pela estrada e pediu carona. Como eu estava indo na mesma direção, dei carona à estátua que queria seguir pela estrada que segue para o futuro.
Sei perfeitamente o que é cair no mar-de-rosas. Entendi perfeitamente a situação dela. Contei parte da minha história. Ela contou parte da história dela. Depois de uma longa conversa, aprendi que se a vida fosse um eterno mar-de-rosas, seríamos para sempre uma pequena estátua sem saber o que é certo e o que é errado.
Quando Pequena Estátua Dourada compreendeu essa frase minha a maldição se quebrou e ela voltou a ser moça de verdade. Isso ocorreu quando já estávamos próximos do local que ela queria ficar. Me abraçou, me agradeceu por tudo, e seguimos nossos caminhos, avistando os mesmo horizontes, mas em estradas diferentes.
Seguindo pela estrada do meu futuro, pensei: “mesmo não sendo mais uma estátua, ela continua sendo feita de ouro”. E com o coração leve, segui meu caminho esperando que nossas estradas se cruzassem novamente...

sexta-feira, 4 de maio de 2007

O Circo dos Céus

Quase um mês sem escrever. A tensão está toda acumulada. Meus dedos sambam pelo teclado. Minha cabeça parece ter milhões de idéias. Meu coração só tem um sentimento: Oba!
Escrever pode se tornar um vício dependendo da forma que você o enxerga. De uns tempos para cá, eu acreditei que a escrita servia para descarregar as emoções. Mas isso pode ser muito ruim. Tenho certeza de que você pensou: “o quê?” ou então... “não concordo”... ou então... “...!” ou então... “concordo”. Para os que concordaram, ótimo. Para os que não concordaram, recomendo que continuem lendo.
Descarregar emoções ruins pode até ser uma boa idéia. Mas o grande problema é quando você descarrega, mesmo que sem querer, as emoções boas. Isso sim gera um vazio muito grande dentro do escritor. Acabam-se as conversas, acabam-se as novidades, acabam-se os sonhos. Tudo vira uma eterna escuridão onde o papel é a única coisa visível na sua frente.
Por exemplo, você conhece uma cidade muito bonita. Se encanta com essa cidade e dá a sorte de morar nessa cidade. No início é tudo muito bom, muito belo. O problema é quando você se fecha em um pequeno mundo, as belezas dessa cidade passam a ficar ofuscadas. Entenderam tudinho?
Não? É difícil explicar mesmo, pois quando eu digo que arte é uma espécie de entorpecente que pode causar dependencia, muitos me criticam. Mas, vou tentar dar um toque menos agressivo à escrita. Não é meu objetivo cuspir palavras. Não é dizer palavras sem cor. Meu objetivo aqui é simplesmente me divertir.
Isso mesmo. Não a escrita, mas a arte em geral deveria ser encarada como uma grande brincadeira. Uma diversão. Eu estava em paz antes de descobrir as maravilhas dessa brincadeira. Mas é quase um caminho sem volta. Depois que você experimenta, não há volta. Com isso em mente, podemos ir em uma pequena viagem, até a cidade onde circo dos céus está pasando, aproveitem que é o último dia que ele estará na Terra!
O Circo dos Céus é o sonho de todos que produzem arte. São deuses, seres mágicos, sacis, fadas, mulas-sem-cabeça, curupiras, elfos, centauros, dragões chineses, dragões ingleses, os feitos de Alexandre, a conquista das Américas, a resistência dos americanos contra as colonizações européias, entre outras histórias fantásticas que permeiam todo nosso imaginário.
Mas o mais impressionante desse circo é que as palavras são vivas. Quer dizer, são sempre vivas, mas é nesse circo é que tomamos consciência concreta da vida dessas criaturinhas mágicas.
Elas se divertem com a nossa ignorância. Às vezes se irritam quando não sabemos usa-las da maneira adequada. Mas o mais legal é que, mesmo sozinho, uma pessoa não se sente solitária quando se encontra no meio de palavras. Isso é um perigo.
Por isso é que não podemos nos ater apenas às coisas fantásticas do mundo da arte. Pois o maior problema desse circo, é que ele não tem palhaços, nem trapezistas, nem malabaristas. Não é um circo de verdade. É uma tenda feita pelos deuses que ganhou o nome de circo.
Quando se escreve demais, você acaba dando muito valor à sua escrita, acaba se machucando quando não escreve. Acaba descarregando tudo de bom, e ficando com coisas ruins dentro de você. Mas você pode retrucar: “mas você pode descarregar apenas as coisas ruins”. Boa resposta, mas eu tenho uma contra-argumentação: “não é do meu estilo querer ser um Fernando Pessoa”. Não sei porque, mas alguns que se dizem intelectuais não aceitam felicidade em seu meio. Portanto, não quero ser intelectual. Obrigado pelo convite.
Fiquei quase um mês sem escrever. Vocês não sabem o quanto isso fez bem. Velhas amizades pareceram ganhar mais vida. A forte Chuva lá fora que o diga. A Rosa, mesmo longe, não se distanciou. O Lobo torna-se mais amigo ainda. E agora temos outros personagens nas histórias futuras, que é a Pequena e o Bando de Tatus Loucos, e principalmente a Cantora Desafinada.
O trabalho não estressa mais, as amizades tornam-se mais firmes, golpes no coração perdoados, músicas cantadas, a escrita voltou a ser diversão. E acreditem, eu estou delirando de rir só de imaginar o que deve estar passando na cabeça de vocês enquanto lêem isso aqui.
É quase o que o mestre Ian diria, só que, mudando algumas palavras, fica: “e o escritor em sua mesa, olha para os rostos sorridentes... e olha os olhares e observa os espaços vazios em meio aos amigos”.
Coração explode de alegria, fogos de artifícios explodem em meu quarto, a cabeça se esvazia de todos os problemas. Não descarreguei nada. Apenas me diverti muito hoje escrevendo isso para vocês. O quebra-cabeças está aí! Boa diversão para vocês também!
A não! Mais uma coisa! Vocês conseguem ver o Circo dos Céus indo para outra clínica de desintoxicação artística?