sexta-feira, 30 de março de 2007
Vida universitária
Acordo corro me apronto saio de casa esqueci alguma coisa em casa vou correndo para a universidade no meio do caminho esqueci aquele texto volto pra busca-lo retorno para a universidade vou pra aula que dura normalmente uma hora e quarenta minutos ao terminar eu saio vou correndo para o restaurante universitário enfrento a fila se tiver pequena pois se tiver grande eu não como lá como em outro lugar provavelmente no self-service ou onde vende macarrão ou no hambúrguer terminando o almoço eu corro para o laboratório para terminar trabalhos artigos mas no meio do caminho encontro várias pessoas que conheço e como sou uma pessoa que não é de Brasília eu paro para cumprimentar e quem sabe quando a pessoa não é da capital conversar um pouco nossa é hora da aula eu vou correndo chego atrasado participo das discussões critico bastante os autores os textos passados são extremamente bobos para mim já não tem mais graça começo a sugerir projetos mas os professores se assustam com a idéia de fugir da prova prova prova relatório de campo como método de avaliação ou então o terrível seminário que ninguém aprende porra nenhuma terminando esta aula eu corro direto pra outra cujo sistema se repete converso faço bagunça olho pro teto e ainda mostro minha capacidade para o professor como eu adoro fazer isso depois da aula retorno para o laboratório para terminar o que tenho que fazer mas chegando lá a reforma terminou e temos que realocar a superpopulação de cadeiras para que possamos ter espaço para andar lá vamos nós fazer serviço braçal de graça para o departamento pobres de nós bolsistas que são bonzinhos ou bobos demais para dizer não recebo para isso de volta ao batente depois de perceber que realmente preciso de uma atividade física estou sedentário ao ponto de ficar cansado por levar seis ou sete cadeiras para o departamento não tinham duzentos metros de distância e eu voltei todo suado para o laboratório sento começo a escrever mas alguém descobre as lendárias fotos do churrasco no computador de alguém e lá vamos nós rir depois eu volto para casa para agilizar o trabalho de uma das disciplinas e depois tenho meu compromisso no buteco começou a liga internacional de revezamento de butecos bateria distrito federal chego em casa duas da manhã e lembro que tenho seminário amanhã e no momento não lembro de nada que deveria apresentar se minha amiga que vai apresentar comigo souber desse fato antes da apresentação ela me mata e ainda por cima vou dormir mais tarde pois bêbado eu não resisto a oportunidade de escrever alguma coisa fora do normal se é que estão me entendendo vou dormir agora para ter mais um maravilhoso dia da agitada vida universitária abraço a todos e beijos no cérebro
Olá, estou morto!
Olá. Meu nome é Thiago. Eu sei onde estou. Eu estou morto. Nesse momento, eu sou um ex-Thiago. Na verdade, eu morri mais de uma vez. Não sei explicar, mas lembro que da última vez foi acidente de carro.
Como estou me sentindo? Bem estranho. Você não sente o corpo, tudo fica escuro, e o mais engraçado é que essa história de que a vida passa diante de nossos olhos é pura besteira. Todos que já morreram uma vez na vida sabem que, por mais eterno que seja aquele segundo em que a morte te abraça, a única coisa que você pensa infinitamente é: “merda”. Quando você acostuma a morrer, você já consegue pensar “a não, eu vou morrer... Socorro!”.
Uma vez morto, você já não sente seu corpo. Não pensa em nada. Tudo se apaga. De repente você se encontra sentado em uma mesa diante um velho barbudo vestindo uma roupa de juiz. Como eu sei que vocês não são burros, já devem ter desconfiado que esse velho barbudo chama-se Juiz.
Deve ser a quarta ou quinta vez que esse velho olha para a minha cara com a mesma expressão de quem não consegue dar uma boa gargalhada em milênios. Para falar a verdade, eu acredito que ditados como “cara de quem comeu e não gostou” foram ensinadas ao mundo por pessoas iguais a mim. Que morreram várias vezes e tiveram a engraçada experiência de olhar para um vulgo ser imortal (ou juizes das almas), que é tão sério, mas tão sério, que você chega a rir daquela expressão.
A melhor forma de descrever essa expressão é usando apenas uma única palavra: buldogues. Isso mesmo, a impressão que eu tenho quando eu estou morto é que estou olhando para um buldogue.
Aquele buldogue velho e barbudo chamado Juiz começa então o tedioso ritual de ler tudo que eu fiz na minha vida. Todos meus pecados. É incrível como um juiz desses acredita que não sabemos o que fizemos. O pecado vai desde “você falou ‘caralho’” até “você chamou os seres imortais, os juizes das almas, de buldogues, zombando de sua superioridade sobre os mortais, concedida pelo grande criador” (a voz de grão-mestre também é bastante ridícula).
Ele lê todos seus pecados e acho que ele fala a mesma coisa para todos ao final do ritual: “nossa, sua lista é extensa”. Bom, se você pára para pensar que falar a palavra “caralho” entra na lista de pecados, e matar uma formiga não entra, paramos para pensar no que esses caras estão com medo. Ainda bem, porque se matar um animal fosse pecado, as pessoas que comem carne estariam fritos (literalmente).
Com certeza devem se agonizar por dentro por serem seres assexuados, e descontam isso na gente porque podemos transar. Mas eu até entendo eles, eu iria achar o mundo um lugar muito chato se as mulheres não existissem.
Terminando essa parte dos pecados, começa a outra parte tediosa. Que é a lista das boas ações. Comparado com a quantidade de pecados que cometemos, essa segunda parte acaba em um piscar de olhos. Já que, a única forma de não pecar é se isolar do mundo. Outra forma de não pecar é puxando o saco dos que ditam as regras (dos ditos homens do senhor), concordando com tudo que dizem sem nenhum pio de dúvida ou questionamento. Normalmente deveria funcionar (mas descobrem que muitos desses ditos ‘homens de Deus’ acabam falando muitas besteiras, como por exemplo, não respeitar a crença do próximo).
Tudo bem, questionamentos são válidos, desde que não façam o “homem de Deus” afirmar que os juizes das almas tem cara de buldogue.
Um fato que eu esqueci de dizer é que Juiz sempre me mandava de volta pra Terra. Dizia que eu tinha algo a fazer. Mas que culpa eu tenho se a Dona Morte é apaixonada por mim? Sempre acabo voltando. O buldogue barbado sempre diz que eu ainda tenho que voltar para a Terra e escrever muitas coisas para muitas pessoas lerem. Acho que ele esqueceu de algo que algum maldito ser humano criou: a burocracia. Isso impede muitas pessoas de fazerem muitas coisas boas.
Todo ser deste universo possui algo chamado paciência. Uns possuem mais, outros menos. E Juiz é um dos seres com um poço de paciência que ninguém imagina. Houve poucas vezes que ele perdeu a paciência. E uma dessas vezes foi quando leu minha vida pela terceira vez. Nessa vez, eu consegui dar uma olhadinha no mundo dos mortos.
Eu sinceramente imagino quantas pessoas devem ter se decepcionado quando morreram e viram aonde foram parar. Sempre me falaram do céu e do inferno, do bem e do mal, e que o céu fica em cima e o inferno fica lá embaixo. Pura bobagem.
O universo possui dois lados: um lado bom, e um lado ruim. Entre esses lados está o cara que criou tudo, seja lá qual for o nome que você dá pra ele (eu não poderia dizer, pois me falaram que isso é pecado).
O mundo dos mortos é exatamente isso. Imagine um parque. Pessoas rindo, brincando, chorando, etc. Os anjos e demônio circulam por esse parque livremente e dificilmente entram em conflito. O engraçado é que a expressão deles é igual a expressão de um ser humano, alguns tristes, outros alegres (isso vale tanto para anjos como para demônios).
Em um dos bancos estão sentados alguns buldogues barbados. Em outro banco, mais ao alto do morro que tem vista para o parque está o grande vovô que cuida de seus filhos e netinhos. Esse é o cara que criou tudo. Não consegui ver muito de perto, mas foi bastante legal ver o homem que criou o universo (eu juro até hoje que eu vi uma garrafa de vinho no pé do banco).
O homem estava lá, descansando, como se o universo fosse perfeito. A idéia até que foi boa, foi bonitinha: criar a vida e tudo mais. Mas o problema é que eu acho que ele nunca passeou pela obra dele. A única coisa que ele conhece de verdade é aquela parte legal do universo que é o parque dos mortos.
Bom, apesar de ter conseguido olhar para esse parque, o velho buldogue logo voltou atrás e me mandou de volta à terra escrever coisas. Voltemos ao presente.
Quarta vez que eu estou escutando aquele juiz de bochechas caídas falando para mim da minha vida. Pensando bem, é até legal, pois você acaba se lembrando de coisas que você se esqueceu.
Mas bem, dessa vez a morte chegou no meio do ritual. Brigou com o velho, pois não queria que eu retornasse à vida de novo. O velho estava meio confuso. Não sabia o que fazer. Ela era realmente apaixonada por mim. Que saco. Porque não dou o azar de achar uma mulher que não seja problemática?
Depois de muita discussão, uma briga começou. Mas era briga de sair tapa e golpes de foice! Nunca imaginei que eu fosse tão importante! Vendo um juiz das almas e a morte brigar pra ver se eu volto à vida ou se eu continuo morto.
Bom, o mais estranho é que a sala de julgamento só tem a mesa, duas cadeiras e aquele livro que ninguém sabe como cabe a vida de todo mundo ali. O resto é escuro, você se sente preso em um grande vazio, por mais paradoxal que isso possa ser.
É legal morrer e voltar a viver, morrer e continuar morto deve ser legal também. Eu estava pensando isso enquanto os únicos dois outros seres que estavam ali presentes se resolviam, quando um grito de impaciência invadiu o lugar.
Era o cara que resolveu criar o universo. Eu estava querendo que ele aparecesse para eu exigir que ele pedisse desculpas pelos inconvenientes, mas como ele é o cara que criou o universo, ele podia projetar apenas a voz dele.
Mandou a morte e o buldogue se calarem. Mandou eu largar mão de ser convencido e que esperava me ver ali naquela cadeira de novo só no dia que eu fosse realmente entrar no parque dos mortos (como se a culpa fosse minha). Mandou eu tomar cuidado com a minha língua também.
Deu uma bronca na Dona Morte, deu uma bronca no buldogue, deu uma bronca em mim e sumiu. Logo depois eu fui despachado para a Terra. Desde então a morte nunca mais veio me incomodar. Graças a Deus que ela me esqueceu (literalmente).
Bom, o mais engraçado é que o velho juiz não esperava que eu fosse voltar a chamar algum juiz dos mortos de buldogue ou qualquer outro apelido engraçado. Não esperava também que eu fosse escrever algo relacionado ao mundo dos mortos, com medo dos outros me chamarem de louco. Sei que ninguém vai acreditar nisso mesmo. Outra coisa que me incentiva a escrever isto, é que a maior parte das pessoas nesse mundo operam em um estado de saúde mental extremamente baixo, então, eu vou escrever isso de qualquer jeito (mesmo correndo o risco de alguém jogar pedras em mim).
O vovô gente boníssima que criou o universo (quando estava bêbado), mandou eu segurar a língua, mas não disse nada em relação às minhas mãos e muito menos às palavras. Então não me olhem com essa cara. Ele deve estar rindo também, só deve ter dado aquela bronca para que o buldogue não perdesse aquela expressão engraçada.
Quando você morre e revive tantas vezes, você pode passar a operar em um nível de saúde mental extremamente baixo também. Mas a diferença é que isso não é uma causa natural. É algo induzido por uma força maior mais conhecido como “enchi o saco”.
Essa doença é pouco discutida entre os médicos, psicólogos e nutricionistas. O principal sintoma é a pessoa se sentir de saco cheio de coisas tediosas como sentar e olhar para o teto o dia todo, ficar puxando ferro na academia o dia todo, correr o dia todo, ficar na frente do computador o dia todo, ficar em casa um dia inteiro, entre outras coisas tediosas.
Uma pessoa de saco cheio é uma pessoa extremamente perigosa, ela nunca para em casa, enche o saco dos amigos para sair, não consegue ficar quieto, mas, o pior de tudo, essa pessoa perde o medo de certas coisas. Como por exemplo, afiar a sua língua a cada dia que passa.
A pessoa perde o medo de dizer a quem está lendo isso que você é gente boa pra caralho. A pessoa acaba perdendo o medo de mandar quem está lendo isso tomar no centro do cu. A pessoa perde o medo de dizer à pessoa que está lendo isso que está com vontade de abraçá-la. A pessoa perde o medo de mandar a pessoa que está lendo isso para parar de choramingar. Entre outras coisas.
O caminho entre a terra e o mundo dos mortos é sempre uma viagem curta e solitária. Nesse caminho você acaba se conhecendo mais do que queria. E, nesse processo, você pode ficar triste ou feliz. Normalmente você fica triste. Eu fiquei triste por três vezes. Nessa última eu fiquei feliz.
Porque? Sei lá, talvez porque eu esteja feliz de poder voltar a viver, pois deve ser um saco só brincar o dia todo em um parque velho que fica sem energia elétrica todos os dias, impedindo que os mortos brinquem por algumas horas...
Eu estive pensando nesses dias, estou cansado de sempre fazer a mesma viagem: partida – Mundo dos Vivos, treze horas com destino à Mundo dos Mortos, horário previsto para chegada, 13 horas e dois segundos.
Eu vi essa tal de vida passando por aí e achei ela realmente muito legal. Acho que desta vez vou fazer Vida se apaixonar por mim, quem sabe assim eu não consiga viver um pouquinho mais, e fugir da terrível maldição que todo Thiago possui...
Que maldição? Basta contar quantos Thiagos ou Tiagos com mais de quarenta anos que vocês conhecem...
Como estou me sentindo? Bem estranho. Você não sente o corpo, tudo fica escuro, e o mais engraçado é que essa história de que a vida passa diante de nossos olhos é pura besteira. Todos que já morreram uma vez na vida sabem que, por mais eterno que seja aquele segundo em que a morte te abraça, a única coisa que você pensa infinitamente é: “merda”. Quando você acostuma a morrer, você já consegue pensar “a não, eu vou morrer... Socorro!”.
Uma vez morto, você já não sente seu corpo. Não pensa em nada. Tudo se apaga. De repente você se encontra sentado em uma mesa diante um velho barbudo vestindo uma roupa de juiz. Como eu sei que vocês não são burros, já devem ter desconfiado que esse velho barbudo chama-se Juiz.
Deve ser a quarta ou quinta vez que esse velho olha para a minha cara com a mesma expressão de quem não consegue dar uma boa gargalhada em milênios. Para falar a verdade, eu acredito que ditados como “cara de quem comeu e não gostou” foram ensinadas ao mundo por pessoas iguais a mim. Que morreram várias vezes e tiveram a engraçada experiência de olhar para um vulgo ser imortal (ou juizes das almas), que é tão sério, mas tão sério, que você chega a rir daquela expressão.
A melhor forma de descrever essa expressão é usando apenas uma única palavra: buldogues. Isso mesmo, a impressão que eu tenho quando eu estou morto é que estou olhando para um buldogue.
Aquele buldogue velho e barbudo chamado Juiz começa então o tedioso ritual de ler tudo que eu fiz na minha vida. Todos meus pecados. É incrível como um juiz desses acredita que não sabemos o que fizemos. O pecado vai desde “você falou ‘caralho’” até “você chamou os seres imortais, os juizes das almas, de buldogues, zombando de sua superioridade sobre os mortais, concedida pelo grande criador” (a voz de grão-mestre também é bastante ridícula).
Ele lê todos seus pecados e acho que ele fala a mesma coisa para todos ao final do ritual: “nossa, sua lista é extensa”. Bom, se você pára para pensar que falar a palavra “caralho” entra na lista de pecados, e matar uma formiga não entra, paramos para pensar no que esses caras estão com medo. Ainda bem, porque se matar um animal fosse pecado, as pessoas que comem carne estariam fritos (literalmente).
Com certeza devem se agonizar por dentro por serem seres assexuados, e descontam isso na gente porque podemos transar. Mas eu até entendo eles, eu iria achar o mundo um lugar muito chato se as mulheres não existissem.
Terminando essa parte dos pecados, começa a outra parte tediosa. Que é a lista das boas ações. Comparado com a quantidade de pecados que cometemos, essa segunda parte acaba em um piscar de olhos. Já que, a única forma de não pecar é se isolar do mundo. Outra forma de não pecar é puxando o saco dos que ditam as regras (dos ditos homens do senhor), concordando com tudo que dizem sem nenhum pio de dúvida ou questionamento. Normalmente deveria funcionar (mas descobrem que muitos desses ditos ‘homens de Deus’ acabam falando muitas besteiras, como por exemplo, não respeitar a crença do próximo).
Tudo bem, questionamentos são válidos, desde que não façam o “homem de Deus” afirmar que os juizes das almas tem cara de buldogue.
Um fato que eu esqueci de dizer é que Juiz sempre me mandava de volta pra Terra. Dizia que eu tinha algo a fazer. Mas que culpa eu tenho se a Dona Morte é apaixonada por mim? Sempre acabo voltando. O buldogue barbado sempre diz que eu ainda tenho que voltar para a Terra e escrever muitas coisas para muitas pessoas lerem. Acho que ele esqueceu de algo que algum maldito ser humano criou: a burocracia. Isso impede muitas pessoas de fazerem muitas coisas boas.
Todo ser deste universo possui algo chamado paciência. Uns possuem mais, outros menos. E Juiz é um dos seres com um poço de paciência que ninguém imagina. Houve poucas vezes que ele perdeu a paciência. E uma dessas vezes foi quando leu minha vida pela terceira vez. Nessa vez, eu consegui dar uma olhadinha no mundo dos mortos.
Eu sinceramente imagino quantas pessoas devem ter se decepcionado quando morreram e viram aonde foram parar. Sempre me falaram do céu e do inferno, do bem e do mal, e que o céu fica em cima e o inferno fica lá embaixo. Pura bobagem.
O universo possui dois lados: um lado bom, e um lado ruim. Entre esses lados está o cara que criou tudo, seja lá qual for o nome que você dá pra ele (eu não poderia dizer, pois me falaram que isso é pecado).
O mundo dos mortos é exatamente isso. Imagine um parque. Pessoas rindo, brincando, chorando, etc. Os anjos e demônio circulam por esse parque livremente e dificilmente entram em conflito. O engraçado é que a expressão deles é igual a expressão de um ser humano, alguns tristes, outros alegres (isso vale tanto para anjos como para demônios).
Em um dos bancos estão sentados alguns buldogues barbados. Em outro banco, mais ao alto do morro que tem vista para o parque está o grande vovô que cuida de seus filhos e netinhos. Esse é o cara que criou tudo. Não consegui ver muito de perto, mas foi bastante legal ver o homem que criou o universo (eu juro até hoje que eu vi uma garrafa de vinho no pé do banco).
O homem estava lá, descansando, como se o universo fosse perfeito. A idéia até que foi boa, foi bonitinha: criar a vida e tudo mais. Mas o problema é que eu acho que ele nunca passeou pela obra dele. A única coisa que ele conhece de verdade é aquela parte legal do universo que é o parque dos mortos.
Bom, apesar de ter conseguido olhar para esse parque, o velho buldogue logo voltou atrás e me mandou de volta à terra escrever coisas. Voltemos ao presente.
Quarta vez que eu estou escutando aquele juiz de bochechas caídas falando para mim da minha vida. Pensando bem, é até legal, pois você acaba se lembrando de coisas que você se esqueceu.
Mas bem, dessa vez a morte chegou no meio do ritual. Brigou com o velho, pois não queria que eu retornasse à vida de novo. O velho estava meio confuso. Não sabia o que fazer. Ela era realmente apaixonada por mim. Que saco. Porque não dou o azar de achar uma mulher que não seja problemática?
Depois de muita discussão, uma briga começou. Mas era briga de sair tapa e golpes de foice! Nunca imaginei que eu fosse tão importante! Vendo um juiz das almas e a morte brigar pra ver se eu volto à vida ou se eu continuo morto.
Bom, o mais estranho é que a sala de julgamento só tem a mesa, duas cadeiras e aquele livro que ninguém sabe como cabe a vida de todo mundo ali. O resto é escuro, você se sente preso em um grande vazio, por mais paradoxal que isso possa ser.
É legal morrer e voltar a viver, morrer e continuar morto deve ser legal também. Eu estava pensando isso enquanto os únicos dois outros seres que estavam ali presentes se resolviam, quando um grito de impaciência invadiu o lugar.
Era o cara que resolveu criar o universo. Eu estava querendo que ele aparecesse para eu exigir que ele pedisse desculpas pelos inconvenientes, mas como ele é o cara que criou o universo, ele podia projetar apenas a voz dele.
Mandou a morte e o buldogue se calarem. Mandou eu largar mão de ser convencido e que esperava me ver ali naquela cadeira de novo só no dia que eu fosse realmente entrar no parque dos mortos (como se a culpa fosse minha). Mandou eu tomar cuidado com a minha língua também.
Deu uma bronca na Dona Morte, deu uma bronca no buldogue, deu uma bronca em mim e sumiu. Logo depois eu fui despachado para a Terra. Desde então a morte nunca mais veio me incomodar. Graças a Deus que ela me esqueceu (literalmente).
Bom, o mais engraçado é que o velho juiz não esperava que eu fosse voltar a chamar algum juiz dos mortos de buldogue ou qualquer outro apelido engraçado. Não esperava também que eu fosse escrever algo relacionado ao mundo dos mortos, com medo dos outros me chamarem de louco. Sei que ninguém vai acreditar nisso mesmo. Outra coisa que me incentiva a escrever isto, é que a maior parte das pessoas nesse mundo operam em um estado de saúde mental extremamente baixo, então, eu vou escrever isso de qualquer jeito (mesmo correndo o risco de alguém jogar pedras em mim).
O vovô gente boníssima que criou o universo (quando estava bêbado), mandou eu segurar a língua, mas não disse nada em relação às minhas mãos e muito menos às palavras. Então não me olhem com essa cara. Ele deve estar rindo também, só deve ter dado aquela bronca para que o buldogue não perdesse aquela expressão engraçada.
Quando você morre e revive tantas vezes, você pode passar a operar em um nível de saúde mental extremamente baixo também. Mas a diferença é que isso não é uma causa natural. É algo induzido por uma força maior mais conhecido como “enchi o saco”.
Essa doença é pouco discutida entre os médicos, psicólogos e nutricionistas. O principal sintoma é a pessoa se sentir de saco cheio de coisas tediosas como sentar e olhar para o teto o dia todo, ficar puxando ferro na academia o dia todo, correr o dia todo, ficar na frente do computador o dia todo, ficar em casa um dia inteiro, entre outras coisas tediosas.
Uma pessoa de saco cheio é uma pessoa extremamente perigosa, ela nunca para em casa, enche o saco dos amigos para sair, não consegue ficar quieto, mas, o pior de tudo, essa pessoa perde o medo de certas coisas. Como por exemplo, afiar a sua língua a cada dia que passa.
A pessoa perde o medo de dizer a quem está lendo isso que você é gente boa pra caralho. A pessoa acaba perdendo o medo de mandar quem está lendo isso tomar no centro do cu. A pessoa perde o medo de dizer à pessoa que está lendo isso que está com vontade de abraçá-la. A pessoa perde o medo de mandar a pessoa que está lendo isso para parar de choramingar. Entre outras coisas.
O caminho entre a terra e o mundo dos mortos é sempre uma viagem curta e solitária. Nesse caminho você acaba se conhecendo mais do que queria. E, nesse processo, você pode ficar triste ou feliz. Normalmente você fica triste. Eu fiquei triste por três vezes. Nessa última eu fiquei feliz.
Porque? Sei lá, talvez porque eu esteja feliz de poder voltar a viver, pois deve ser um saco só brincar o dia todo em um parque velho que fica sem energia elétrica todos os dias, impedindo que os mortos brinquem por algumas horas...
Eu estive pensando nesses dias, estou cansado de sempre fazer a mesma viagem: partida – Mundo dos Vivos, treze horas com destino à Mundo dos Mortos, horário previsto para chegada, 13 horas e dois segundos.
Eu vi essa tal de vida passando por aí e achei ela realmente muito legal. Acho que desta vez vou fazer Vida se apaixonar por mim, quem sabe assim eu não consiga viver um pouquinho mais, e fugir da terrível maldição que todo Thiago possui...
Que maldição? Basta contar quantos Thiagos ou Tiagos com mais de quarenta anos que vocês conhecem...
Um brinde!
Tudo bem. Mais uma sexta-feira em casa. Como adoro as pessoas de Brasília. Nada melhor que combinar a semana inteira para sair, e chegar no dia, e alguma desculpa esfarrapada aparecer para desmarcarem tudo.
O mais engraçado que os brasilienses sofrem de uma doença provocada pela “enrrolatus coletivus”, uma bactéria que faz a pessoa ser enrolada. E isto já é questão de saúde pública mesmo. Uma epidemia eu diria.
Um caso típico ocorreu hoje. Combinei com sete pessoas de ir à um bar. Ali, do lado de nossas casas. Só uma dessas pessoas que mora mais longe. Aliás, duas. Uma em Taguatinga e a outra no Guará. Então estes dois transeuntes estariam perdoados. Se não fosse a terceira vez que furam um programa.
As outras cinco pessoas, o que dizer? É literalmente abrir a porta de casa e atravessar a rua. Isto nos leva a uma interessante análise sócio-espacial desta doença que, devido à falta de estudos em cima dela, chamaremos de S.F., ou Síndrome do Furo.
A S.F., pelo que foi percebido, ataca principalmente o Plano Piloto de Brasília e as cidades-satélite de Taguatinga, Guará, Lago Norte e Lago Sul. Isso se deve à expansão urbana desordenada entremeada de espaços vazios no interior da cidade.
Esses espaços geram uma percepção de isolamento criando condições ideais para o desenvolvimento da bactéria. Por isso, os brasilienses dos locais apontados se isolam vivendo em uma espécie de “mundo próprio”. Não conversam, tem medo de calor humano, tem medo de se aproximar dos outros, e, o pior de tudo, são extremamente enrolados.
Mas ao mesmo tempo, essas mesmas pessoas incrivelmente são extremamente versáteis em suas profissões. Trabalham, trabalham, trabalham. Mas aparentemente nunca tem tempo para se divertir. Eu disse aparentemente.
Por exemplo, ligo para uma amiga para confirmar a tal saída do bar, ela atende o telefone ofegante, dizendo que está na academia. Pergunto-me se não atrapalhei uma trepada. Pessoas que exercem o papel social de convidar as pessoas tem esse péssimo hábito de interromper trepadas através de telefonemas. Bem, problemas das pessoas que atendem o telefone enquanto estão trepando.
Voltando à análise inicial, devemos salientar que as pessoas que sofrem dessa doença se encaixam no perfil da classe média e das classes de alta renda. Talvez seja porque os brasilienses tem medo de seu rico patrimônio ser roubado enquanto estão na mesa de bar. Normalmente gastam horrores de dinheiro pra ficar em casas de festa durante... duas horas. Depois voltam para casa, pois não podem suar, peidar, cagar fora de casa, ficar sem exibir o carro novo na porta das festas, esnobar as pessoas em volta, etc.
Proponho aqui mapear esta doença, e localizar suas quadras de maior ocorrência. A Asa Norte precisa seriamente desta análise para que a secretaria de saúde tome as devidas providências. O sindicato de bares iria gostar disso, pois assim teriam mais fregueses.
Sexta-feira, com uma garrafa de cerveja em minha mesa, na frente do computador, escrevendo, comendo pão de queijo, sozinho. Mais tarde eu assisto um filme que aluguei. Talvez seja melhor eu procurar a tal da bactéria para ver se eu não esquento muito a cabeça com isso. Enquanto meu coração mineiro não se contamina com essa palhaçada brasiliense, faço um brinde aos brasilienses. Vão à merda!
O mais engraçado que os brasilienses sofrem de uma doença provocada pela “enrrolatus coletivus”, uma bactéria que faz a pessoa ser enrolada. E isto já é questão de saúde pública mesmo. Uma epidemia eu diria.
Um caso típico ocorreu hoje. Combinei com sete pessoas de ir à um bar. Ali, do lado de nossas casas. Só uma dessas pessoas que mora mais longe. Aliás, duas. Uma em Taguatinga e a outra no Guará. Então estes dois transeuntes estariam perdoados. Se não fosse a terceira vez que furam um programa.
As outras cinco pessoas, o que dizer? É literalmente abrir a porta de casa e atravessar a rua. Isto nos leva a uma interessante análise sócio-espacial desta doença que, devido à falta de estudos em cima dela, chamaremos de S.F., ou Síndrome do Furo.
A S.F., pelo que foi percebido, ataca principalmente o Plano Piloto de Brasília e as cidades-satélite de Taguatinga, Guará, Lago Norte e Lago Sul. Isso se deve à expansão urbana desordenada entremeada de espaços vazios no interior da cidade.
Esses espaços geram uma percepção de isolamento criando condições ideais para o desenvolvimento da bactéria. Por isso, os brasilienses dos locais apontados se isolam vivendo em uma espécie de “mundo próprio”. Não conversam, tem medo de calor humano, tem medo de se aproximar dos outros, e, o pior de tudo, são extremamente enrolados.
Mas ao mesmo tempo, essas mesmas pessoas incrivelmente são extremamente versáteis em suas profissões. Trabalham, trabalham, trabalham. Mas aparentemente nunca tem tempo para se divertir. Eu disse aparentemente.
Por exemplo, ligo para uma amiga para confirmar a tal saída do bar, ela atende o telefone ofegante, dizendo que está na academia. Pergunto-me se não atrapalhei uma trepada. Pessoas que exercem o papel social de convidar as pessoas tem esse péssimo hábito de interromper trepadas através de telefonemas. Bem, problemas das pessoas que atendem o telefone enquanto estão trepando.
Voltando à análise inicial, devemos salientar que as pessoas que sofrem dessa doença se encaixam no perfil da classe média e das classes de alta renda. Talvez seja porque os brasilienses tem medo de seu rico patrimônio ser roubado enquanto estão na mesa de bar. Normalmente gastam horrores de dinheiro pra ficar em casas de festa durante... duas horas. Depois voltam para casa, pois não podem suar, peidar, cagar fora de casa, ficar sem exibir o carro novo na porta das festas, esnobar as pessoas em volta, etc.
Proponho aqui mapear esta doença, e localizar suas quadras de maior ocorrência. A Asa Norte precisa seriamente desta análise para que a secretaria de saúde tome as devidas providências. O sindicato de bares iria gostar disso, pois assim teriam mais fregueses.
Sexta-feira, com uma garrafa de cerveja em minha mesa, na frente do computador, escrevendo, comendo pão de queijo, sozinho. Mais tarde eu assisto um filme que aluguei. Talvez seja melhor eu procurar a tal da bactéria para ver se eu não esquento muito a cabeça com isso. Enquanto meu coração mineiro não se contamina com essa palhaçada brasiliense, faço um brinde aos brasilienses. Vão à merda!
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