sexta-feira, 18 de maio de 2007

A Estátua na estrada

Andando pelo caminho encontrei uma pequena estátua de ouro. Minha curiosidade ganhou forças e fiquei ali parado apreciando a estátua.
A estátua era do tamanho de três mãos de criança, O brilho era impecável. Mas eram os olhos da estátua que chamavam a atenção. São poucas estátuas que tem olhos tão vivos e tão belos. Fiquei hipnotizado por aqueles olhos.
De repente tive uma estranha impressão. A estátua tinha piscado para mim. Você deve estar achando que sou louco. Eu também achei. Para ter certeza de que tinha sido apenas impressão, me aproximei novamente. Ela piscou de novo.
Não estava louco. Pisquei de volta, de forma bem tímida, e ela começou a rir. Perguntou para onde eu estava indo, explicou que tinha sido abandonada, e perguntou se não havia como eu dar-lhe uma carona. Claro que poderia dar carona a uma estátua que fala! Carreguei Pequena Estátua Dourada na mão mesmo, e fomos conversando sobre muitas coisas durante o caminho.
Você deve estar se perguntando por que uma estátua de ouro estava falando? Simples. Ela não era apenas uma estátua. Já foi uma moça. Porém, quando uma pessoa cai em um mar-de-rosas, ela vira uma estátua. Não evolui. Não cresce. E esta moça foi acidentalmente jogada em um mar-de-rosas.
Anos se passaram, e alguém tirou ela de lá. Pensou: “Que estátua bonita!” e colocou ela dentro do bolso.
Mas essa pessoa abandonou a estátua e a deixou ali na estrada. Na verdade, foi exatamente em uma bifurcação onde um caminho seguia para o futuro e o outro para o passado. Ele queria seguir pela segunda estrada, e, às vezes, é necessários que abandonemos algumas coisas valiosas para que possamos seguir algumas estradas em nossas vidas. Esse foi o caso. Ele deixou Pequena estátua Dourada para trás.
O que ele sentiu ao fazer isso? Não sei. Não quero saber. É o tipo de pergunta sem resposta que só leva à loucura. Pequena Estátua Dourada ficou muito triste quando foi abandonada ali na estrada. Como pôde confiar assim em alguém? Não sei. Não quero saber. Outra pergunta sem resposta que só causa dor. Não adianta ficar matutando sobre isso.
Mas, apesar da tristeza, ela logo esqueceu. Já estava melhorando sozinha, e além disso, apareceu um viajante na estrada. Retornamos ao início dessa crônica. Ela me viu andando pela estrada e pediu carona. Como eu estava indo na mesma direção, dei carona à estátua que queria seguir pela estrada que segue para o futuro.
Sei perfeitamente o que é cair no mar-de-rosas. Entendi perfeitamente a situação dela. Contei parte da minha história. Ela contou parte da história dela. Depois de uma longa conversa, aprendi que se a vida fosse um eterno mar-de-rosas, seríamos para sempre uma pequena estátua sem saber o que é certo e o que é errado.
Quando Pequena Estátua Dourada compreendeu essa frase minha a maldição se quebrou e ela voltou a ser moça de verdade. Isso ocorreu quando já estávamos próximos do local que ela queria ficar. Me abraçou, me agradeceu por tudo, e seguimos nossos caminhos, avistando os mesmo horizontes, mas em estradas diferentes.
Seguindo pela estrada do meu futuro, pensei: “mesmo não sendo mais uma estátua, ela continua sendo feita de ouro”. E com o coração leve, segui meu caminho esperando que nossas estradas se cruzassem novamente...

Um comentário:

Anônimo disse...

Excelente texto! Sempre que você escreve sobre essas lembranças fica esse tom de "melancolia feliz" hehehe

Um abraço!!!